O TRATADO DOS PÁSSAROS

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O TRATADO DOS PÁSSAROS

Mensagempor iadph » Ter Mai 04, 2010 01:28

Apesar de sua possibilidade de atingir uma capacidade total de
consciência objetiva, o homem permanece preso à uma visão limitada e distorcida da realidade.

"O Tratado dos Pássaros
Nesta noite tive um sonho muito estranho, mas muito maravilhoso. Acordei sorrindo e com
lágrimas nos olhos. Me sentia em êxtase, como se tudo que vivi não tivesse sido um sonho....
Senti-me como se fosse um pássaro que nasceu livre, um pássaro raro, de beleza indescritível,
de linhagem nobre.... um pássaro celeste de penas luminosas.... Mas dos céus desci para a terra
com meus amigos, e voávamos pela beleza verde deste vales sedutores, coloridos, perfumados.
Fomos envolvidos, em nossa juventude, pelo brilho destas árvores transitórias, brincávamos em
nossa euforia enquanto os dias se apressavam. A cada momento adiávamos nosso retorno, até
que certo dia, cansados, descemos para beber água e descansar. E sob a sombra de uma imensa
arvore estávamos quando de repente do alto caiu sobre todos nós uma rede.
Prisão
Lá estávamos nós, impotentes, pássaros presos a terra....asas atadas ao corpo...
E dia após dia embaraçados nas linhas desta rede envolvente, as lembranças de nossa casa se
tornavam mais e mais distantes, assim como nossas esperanças, assim como nossos sonhos.
Pouco a pouco fomos esquecendo de nossa natureza, presos ao chão, a sombra deste
esquecimento e fascínio pesava como correntes em nossos pés.
E assim sucumbimos, nos tornamos seres terrestres, olhando para o chão, presos e atados à força
desta atração, e não conseguíamos nem ao menos olhar mais para o horizonte, sequer
lembrávamos de nossa prisão.
Foi quando num dia, a tarde se aproximou pesadamente, colorindo o horizonte de nostalgia,
enquanto sua luz se esvanecia num vermelho de sangue, que rasgava o azul do céu. E com o
pescoço dolorido a cabeça pesada, meus olhos foram erguidos, e meu coração atraído por essa
luz que desaparecia, enquanto a noite apressadamente adensava a atmosfera, abafando os sons e
preenchendo a escuridão de mistério e solidão.
Fiquei confuso, imagens retornavam à minha mente, meu coração ficou agitado, fui tomado por
um desespero e não sabia porque. Saudade, tristeza, angústia, medo...
Enquanto chorava lembrava da liberdade, recordava de minhas asas... Não sabia mais o que era
verdade, e o que era alucinação. Mais e mais as recordações voltavam, e cada uma delas era um
duro golpe em meu coração... Como vim parar aqui? Como permiti com que me aprisionassem?
Como pude esquecer meu nome? Como pude esquecer de minha casa, de meu Pai? E num grito
de desespero ergui o olhar e os punhos para céu.... E lá estava a lembrança. Na luz da lua
lembrei dos céus, recordei minha origem, ansiei novamente pela minha casa. Me apaixonei
novamente. Enquanto a Lua me olhava, me sentia envergonhado, pedia perdão, pedia ajuda...
Não mais podia ficar ali.
A saudade me tornava desesperado, andava de um lado para o outro, procurava por meus
amigos, buscava ajuda... Comecei a ouvir soluços, choros mudos, fui reconhecendo novamente
meus amigos.... Mas como sair? Como nos livrar desta rede?
Libertação
Foi quando vimos um pássaro se movimentando rapidamente. Habilmente com seu bico ele
rasgava a rede e pouco a pouco se libertava. E então num movimento silencioso e rápido
segurou a corrente e pulou para fora da rede, correu alguns metros e com uma pedra em seu bico
golpeava fortemente a corrente. E finalmente arrebentou-a, e mesmo cansado e esgotado, ele
prosseguiu. Perplexos, chamamos por ele. Ele explicou o que fazer, mas alertou-nos para que
fôssemos rápidos e silenciosos, antes que o dia surgisse.
Após um grande esforço, conseguimos nos soltar. Estávamos livres, e junto com ele corremos
nos afastando daquele local.
Estávamos cansados e nossas asas estavam enrijecidas. Mas continuamos voando enquanto a
noite findava.
Então, ouvimos um canto poderoso, cheio de beleza, que encheu nossos corações de Saudade e
Esperança. A noite retirava seu manto escuro e a lua se escondia.
A escuridão era rasgada pelo violeta, que lentamente se transformava em púrpura. Fomos
tomados por tamanha emoção que alguns de nós desmaiaram, enquanto os outros perplexos e
extasiados contemplavam a Luz se erguer no horizonte. Eis que surge o Sol, brilhando, cegando,
consumindo a escuridão, preenchendo de vida o universo. E o Sol se ergueu também no
horizonte da alma, devolvendo a ela o brilho de seu Amor, a certeza de seu propósito... E junto
com o Sol surge no horizonte um pássaro, que voa brilhando, imponente, majestoso. Ora
dourado como o Sol, ora púrpura como o crepúsculo. Ele nos fita, sobrevoando nossas
cabeças...E por fim pousa à nossa frente.
Pedimos por ajuda, pedimos por orientação. Reconhecemos nele a Luz da verdade, em seu
semblante estavam todas as respostas. Como um velho amigo, nos disse que resgatava aqueles
que se libertavam do sono da ignorância.
E ele nos disse:
'Esperem a noite cair e sigam o caminho da lua, voem através das esferas, mas não se
detenham... pois o palácio do Rei é sua morada, vocês são o adorno e o espelho de Sua Beleza.
Se apressem.'
E quando caiu a noite, voamos desesperados em direção à luz da Lua, atraídos por seu
mistério...nossa energia era nossa saudade....
E voamos... voamos através do mistério, nos entregamos à nostalgia... fomos envolvidos nesta
emoção, na Beleza desta luz, e na perfeição de seu reflexo.
Prosseguindo, recebemos o conhecimento; perplexos, abandonamos nossas certezas e
abraçamos a Sabedoria.
A Beleza dançou para nós, e nós dançamos para ela. Fomos completamente seduzidos,
transformados, nos tornamos amantes e amados, apaixonados em pelo outro. Uns quase se
perderam tamanha era a beleza deste Amor E a sutileza daquela emoção envolvente foi se
tornando mais poderosa, mais intensa, um fogo surgiu em nossos corações.
O Sol ergueu-se poderosamente diante de nós. É impossível descrever sua presença, seu poder.
Sua luz consumia a tudo, queimava nossos seres, nos separava de nós mesmos... nos aniquilava.
Achávamos ter encontrado a Luz do Rei...mas lembrei do que nos disse o pássaro... e gritei para
prosseguirmos....muitos não escutaram e ali permaneceram....
Fui então tomado de uma força, uma raiva, uma impetuosidade que se tornou um grito, e
voamos mais rápido e bravamente do que jamais imaginamos.... E no meio daquela loucura de
repente ultrapassei algum limite... e entramos numa atmosfera lenta, densa, maravilhosa... Havia
uma vibração, um som, que de tanta beleza partia nossos corações, nos silenciava.
Era tanta Perfeição tanta Beleza, tanta Bondade. Enquanto chorávamos imersos nesta beleza,
sentíamos a Presença desta harmonia... E girávamos nesta música silenciosa...
E fomos conduzidos aos limites, ultrapassamos este espaço, e agora víamos toda a galáxia, todo
o universo. Sentíamos a presença do Poder e da Soberania, o Ser a contemplar o Mundo, ali
onde Tempo e Eternidade se separavam. Não éramos capazes de nos reconhecer como nós
mesmos, nos sentíamos do tamanho deste universo, além deste espaço, além deste tempo...
E ali esperamos. Aos poucos nos aquietamos e mergulhamos em um silêncio profundo. O
universo havia parado. Estávamos imersos na eternidade infinita.
O Palácio
Foi quando surgiu novamente o Pássaro. Agora ele irradiava uma Luz indescritível. Ele sorria
esfuziante, contente com nossa jornada, por termos conseguido chegar. Ele nos agradeceu
profundamente. Era como se nossa jornada tivesse redimido a todos nós, como se nossa
conquista fosse também a conquista dele, como se ao retornarmos, o tivéssemos trazido de
volta, devolvido a ele a plenitude de sua Luz..
E ele contou a nossa história, nos revelou nossa natureza. Disse que a Presença do Rei era nossa
morada, que em seus jardins habitávamos antes de sermos aprisionados. E que o Amor do Rei
preenche cada átomo do Universo, que a saudade Dele é o seu chamado de retorno. Que os
planetas giram enamorados, inebriados nesta nostalgia e Beleza. E só aquele que se atira no
espaço perseguindo sua necessidade alcança os confins da Criação.
Mas nos revelou que dali para frente não poderia nos acompanhar. Que só a nós era permitido
atravessar o Palácio, e ainda assim só seriam recebidos na intimidade do Rei aqueles que
abandonassem de vez suas vestes de sombra. Teríamos de estar dispostos a abandonar tudo.
Fomos preenchidos de um temos, um amor tamanho que assustava. Nos consumíamos em
antecipação. Ele nos apontou a porta, e conforme nos aproximávamos íamos sendo tomados de
Amor, Saudade, Temos, emoções jamais sentidas, que se expandiam a um limite insuportável
tamanha era a força da presença que emanava por aquela porta. Imaginei que fosse explodir,
desaparecer, morrer. Muitos de nós sucumbimos, caímos no chão, inconscientes.
Na Presença do Rei
E impulsionados, atraídos por esse infinito, deixando para trás tudo que tinha sobrado de nós,
fomos nos tornando Luz. E ao abrirmos a porta a Luz explodiu, nos rasgou, e foi como se
tivéssemos saído de dentro de nós. Antes éramos pássaros de luz, e agora éramos somente Luz.
Éramos reflexos da Luz da presença do Rei. Nossa beleza e perfeição emanavam dele, assim
como nosso próprio Ser.
Penetramos o Palácio, contemplamos o Trono, e então a face.... a Luz era tanta, era tanta a
Beleza e o Amor, que me senti sucumbindo, morrendo, sendo mergulhado na Luz de sua
presença... E então não mais existia, tudo era luz...Tudo era Ele... não existia mais eu, mais
nada, só Ele...
Não sei quanto tempo passou, pois o tempo não existia, nem espaço. Só sei que me sentia
totalmente imerso nos braços de sua intimidade, diante de Sua Face, imerso em sua Perfeição.
Mas agora me sentia como a própria criação, maior que todo o Universo, Reflexo perfeito de
Seu Ser. Não havia imagem, ainda assim sua face era a mais Bela. Não havia som ainda assim
Sua Presença era a mais sublime das músicas...
Então, de repente senti novamente o peso do resto daquela corrente atada em meus
calcanhares... Pedi a ele que removesse os grilhões de minha perna de modo que pudesse servir
em sua corte para sempre, mas ele respondeu, 'Apenas aquele que colocou os grilhões em sua
perna poderá removê-los; eu mandarei um mensageiro com você para convencê-lo a remover
estas correntes.'
Ele olhou para mim e vi que havia chegado a hora de voltar... e eu me joguei ao chão,
desesperado, confuso, implorando para que Ele me deixasse ficar, que eu não suportaria me
separar de novo, que morreria...
E Ele disse que eu nunca estive separado, e que aquelas correntes iriam fazer com que eu não
mais esquecesse. Que eu não precisava temer, pois em meu coração estava todo o universo, e
aquela era minha responsabilidade, e que chegaria o dia onde novamente estaria em seu jardim
para não mais retornar...
E novamente me senti abraçado, tomado, abrasado naquele amor, naquela beleza.
Retorno
E preenchido de beleza e perfeição, comecei a girar. Senti-me girando no universo, refletindo
eternamente a luz do amado. De meu ser emanava a luz das luzes, escorriam as lágrimas de
saudade e amor e o universo se renovava. Os planetas giravam extasiados, apaixonados,
velozmente enlouquecidos, preenchidos de novo da luz da recordação, da verdade do amor. As
galáxias explodiam e giravam numa felicidade infinita.
O universo se calou enquanto a criação renascia.
E conforme eu descia e girava, compreendia que era Ele sempre presente, criando e criado,
criador e criação. Que no amor dos meus olhos, Ele via o mundo, Ele via a si mesmo.
Compreendi então o propósito do homem, o propósito da criação.
Recordei da ilusão do esquecimento que vela o homem, que o torna um simples animal. Mas
compreendi a natureza da vida, as dificuldades desta prisão temporal Tudo agora era perfeito.
É no poder de nossa recordação que está a chave. Dentro do coração do próprio homem se
encontra a porta. Mas ele foi esquecido, abandonado, o homem se tornou desesperado, egoísta,
cego. O homem teme seu propósito, teme o amor porque ele questiona, consome, transforma.
Reduz a pó nossas certezas, nossas ilusões, nossas farsas. Nesse momento em que minha
jornada pareceu uma eternidade, percebo que ela nada mais é que um único véu, um único
passo.
E no momento em que estas imagens passavam em minha mente, e via a prisão mesquinha,
triste e escura em que o homem se força a permanecer, enquanto a porta em direção a Verdade
permanece eternamente aberta, fui tomado pela compaixão.
A luz do amado explodiu dentro de mim em amor e compaixão. Uma bondade emanava e
redimia o mundo, trazia nova esperança aos homens. O dia amanheceu azul, alegre. E
novamente compreendi que não há nada a não ser Ele. Que tudo é perfeito.
E num piscar de olhos levantei na minha cama e vi se esvaecer à minha frente a face daquele
pássaro, sorrindo. E lá estava eu, chorando, sorrindo..."


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